O release enviado pela gravadora trata o cantor e compositor Erasmo Carlos, 65 anos, como um dos dois maiores compositores populares brasileiros de todos dos tempos. Não é para menos. Ao lado do amigo de meio século, Roberto Carlos, Erasmo foi responsável por algumas das músicas mais cantadas no Brasil nas últimas décadas, apesar de não ter a mesma fama do Rei.
Mesmo assim, no recém-lançado “Erasmo Carlos Convida – Volume 2”, um time de várias gerações presta um tributo ao Tremendão, através de duetos com o próprio criador, num time que vai de Chico Buarque a Skank, passando por Marisa Monte, Milton Nascimento, Los Hermanos, Lulu Santos, Os Cariocas e muitos outros. Vinte e sete anos separam o primeiro projeto Erasmo Carlos Convida e o segundo volume que está chegando às lojas. Não há muita diferença no status que Erasmo Carlos ocupava na costelação da música brasileira naquele longínquo 1980 com o atual: infelizmente, ele é mais lembrado como o parceiro de Roberto Carlos do que propriamente por sua trajetória, que possui momentos pontuais de extrema genialidade e igualmente fundamentais para a história dos últimos 45 anos da música brasileira. Naquele tempo, o disco serviu para reafirmar sua importância e abriu uma temporada de sucesso para Erasmo, seguido pelo êxito dos trabalhos seguintes: Mulher (1981), especialmente, chegou a rivalizar em vendas com o parceiro real. Fato o credenciou novamente no primeiro time. Erasmo Carlos Convida - Volume II (Indie Records), assim como outros discos de duetos, bem poderia ser encarado como um anabolizante da carreira de um artista que já não desfruta dos bons momentos criativos do passado. Nomes como Frank Sinatra, Ray Charles, B.B. King usaram este artifício internacionalmente; por aqui, o próprio 'irmão camarada' Roberto Carlos o fez recentemente. Mas Erasmo procurou refazê-lo num processo diferente. Ao invés de burocraticamente trazer o convidado para o estúdio e registrar tudo com sua própria banda, ele resolveu mergulhar no modus operanti de cada um deles. Tema de não quero ver você triste, dueto com Marisa Monte, por exemplo, foi gravado com os músicos da cantora e ganhou todo aquele clima meio tribalista. O mesmo aconteceu com a primeira faixa do projeto a ser conhecida do grande público: Olha, com Chico Buarque que ganhou arranjo de Luís Cláudio Ramos - maestro de Chico. A música, que integra a trilha sonora da novela Paraíso Tropical, causou surpresa ao se ouvir a voz de Chico num clássico do repertório de Roberto Carlos, algo realmente inédito - apesar da bela canção já ter ganho gravações de grandes intérpretes do universo buarqueano, como Nara Leão, Gal Costa e Maria Bethânia. O projeto traz outros momentos igualmente fortes como a delicada O Portão com Kid Abelha, a apaixonada De tanto amor com Djavan, e a irreverente Ilegal, imoral ou engorda com Adriana Calcanhotto. Talvez só tenha faltado do sentimento-título de Emoções no dueto com Milton Nascimento, muito provavelmente pela dificuldade de unir vozes tão diferentes. Mas até Simone não manchou a sensualidade de Vou ficar nu pra chamar sua atenção. A principal candidata a clássico do projeto é o dueto de Erasmo com Zeca Pagodinho em Cama e Mesa. O sucesso da fase 'motel' de Roberto Carlos virou um pagode de primeira, daqueles que você já sai batucando na mesa. Zeca aprontou das suas, mudou as divisões e o resultado é soberbo. Vai virar hit nos sambas e pagodes da cidade, dos mais tradicionais sambas de mesa aos pagodões românticos. É absolutamente irresistível, dando uma nova perspectiva para uma música que se revelava menor dentro do enorme repertório da dupla Roberto e Erasmo. E não é só isso. Além de reafirmar seu nome na parceria maior da música brasileira, o projeto meio que deixa de lado a fase Jovem Guarda e joga luz sobre músicas que fazem parte da trajetória solo de Erasmo Carlos, especialmente momentos fundamentais como fera do samba-rock, quase tão importante quanto Jorge Ben Jor e Trio Mocotó - artistas aliás com quem Erasmo dialogava musicalmente na virada dos anos 60 para 70. Coqueiro Verde, que abre o CD num dueto com Lulu Santos, foi gravada pelo Trio Mocotó. Aqui ganhou uma versão que reforça o groove original, atualizada pelos samples e os beats eletrônicos. O quarteto mineiro Skank fez outro ponto alto, A banda dos contentes - aliás, uma crítica bem humorada à ditadura militar daquele ano de 1976. E outro ponto alto é a soturna Sábado morto, que Erasmo é acompanhado pela rapaziada do Los Hermanos. Incrível ouvir a combinação perfeita das vozes de Rodrigo Amarante e do eterno tremendão. Erasmo Carlos dá o pulo do gato e prova sua importância como autor visionário e criativo. DISCOGRAFIA A Pescaria (1965) Você Me Acende (1966) O Tremendão (1967) Erasmo Carlos (1967) Erasmo (1968) Erasmo Carlos e os Tremendões (1970) Carlos, Erasmo (1971) 1941-1972 Sonhos e Memórias (1972) 1990 - Projeto Salva Terra (1974) Banda dos Contentes (1976) Pelas Esquinas de Ipanema (1978) Erasmo Convida (1980) Mulher (1981) Amar Pra Viver Ou Morrer De Amor (1982) Buraco Negro (1984) Erasmo Carlos (1985) Abra Seus Olhos (1986) Apesar Do Tempo Claro (1988) Sou Uma Criança (1989) ao vivo Homem De Rua (1992) É Preciso Saber Viver (1996) Pra Falar de Amor (2001) Erasmo Carlos Ao Vivo (2001) Mesmo que Seja Eu (2003) caixa-coleção Santa Música (2004) O Tremendão (2004) caixa-coleção Erasmo 65 - Na Estrada (2005) coletânea Jovem Guarda - 40 Anos de Rock Brasil (2005) ao vivo com Wanderléa, The Fevers e Golden Boys Erasmo Convida - volume II (2007) Publique este artigo no seu site | Visto: 4741
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