O rádio chegou ao Brasil em 1922. Em 2007 os ouvintes continuam fascinados por este veículo de comunicação A maior escola de seu José Miguel é o radinho de pilha. Foi com ele que aprendeu boa parte do que sabe sobre o mundo. Não desgruda do aparelho enquanto está em casa. Até adormece na rede com ele no ouvido, enquanto escuta informações e músicas. Essa parceria ganhou força em 1945, ano em que acabava a II Guerra Mundial.

Então com 18 anos, seu José, que morava no município de Quixadá, ia de cavalo até o distrito de Cipó dos Anjos, distante oito quilômetros de sua casa, para ouvir notícias dos pracinhas brasileiros transmitidas pelo único aparelho da redondeza. Na volta, ele espalhava as novas a todo o vilarejo.
“Sou o mais velho ouvinte do Ceará. E devo todo o meu conhecimento ao rádio. Só estudei três meses da minha vida. Portanto, sou analfabeto, mas minha maior escola foram as informações repassadas pelos comunicadores. Sem o rádio eu não sou ninguém”.
Seu Zé Miguel lembra que o primeiro aparelho era enorme, todo em madeira. “Hoje, mudou muito. Carrego o meu radinho para todo lado e até durmo com ele”, comentou.
Perfil
Mais de 40 anos, aposentados, pessoas com insônia, que trabalham à noite e que adquiriram boa parte do conhecimento pelo rádio. Este é o perfil do ouvinte, segundo a Associação de Ouvintes de Rádio do Ceará, criada há cinco anos.
Dela fazem parte ouvintes como o seu Zé Miguel e também Inês Cabral, que herdou da mãe a afinidade com os comunicadores, de quem fala como se fossem pessoas da família, inclusive dos que já se aposentaram. Ela se queixa da dificuldade econômica que alguns deles enfrentam na velhice, mesmo depois de terem feito tanto sucesso com suas belas e cativantes vozes.
Inês é daquelas ouvintes que, vez por outra, pode ser sintonizada pelas ondas moduladas, uma vez que está sempre participando ao vivo de diferentes programas, seja mandando abraços para pessoas queridas, desde familiares até conhecidos como comerciantes e pipoqueiros.
“Já fui homenageada várias vezes em diferentes emissoras. Sou também torcedora símbolo do Ceará, porque, além de acompanhar o futebol, eu faço campanha pela solidariedade e pela paz entre os torcedores”.
Mas a função mais nobre, na sua opinião, é a possibilidade de ajudar a diversas pessoas com as campanhas que lança no ar. “Os outros ouvintes sempre ajudam”. SAIBA MAIS
A Era do Rádio
No final do século XIX, em diferentes partes do mundo, como Itália, Sérvia e Brasil, pesquisadores vinha estudando formas de efetivar a transmissão de informações de longo alcance. Consideram alguns que a primeira transmissão radiofônica do mundo foi realizada em 1906, nos Estados Unidos por Lee de Forest, experimentalmente para testar a válvula tríodo. No Brasil, a primeira transmissão foi em 7 de setembro de 1922, centenário da Independência. O discurso do presidente Epitácio Pessoa, no Rio de Janeiro, foi transmitido para receptores instalados em Niterói, Petrópolis e São Paulo, através de uma antena instalada no Corcovado. No Ceará, a primeira rádio foi PRE-9 - Ceará Rádio Clube, implantada em 1934, sendo a única no Estado por 14 anos. O rádio foi o principal veículo de comunicação no Estado até 1960, quando a televisão tornou-se uma realidade para os cearenses, dez anos depois de chegar ao Brasil.
A guerra dos mundos
O poder da rádio sobre o comportamento das pessoas ficou comprovado com o histórico episódio de ´A Guerra dos Mundos´, uma transmissão radiofônica feita nos Estados Unidos, por Orson Wells, em 1938. Tratava-se de um texto em formato jornalístico que anunciava a invasão do mundo por extraterrestres. A transmissão ficou famosa mundialmente por provocar pânico nos ouvintes, pois imaginavam que a invasão estava acontecendo de fato. O sucesso foi tão grande que no dia seguinte todos queriam saber quem era o responsável pela tal ´pegadinha´. GEOGRAFIA SENTIMENTAL
Informação jornalística em queda
A falta de investimentos publicitário nas rádios, especialmente na freqüência AM, consagrada como a modulação com foco nos programas jornalísticos e informativos, tem contribuído para a proliferação de formatos pouco direcionados às notícias locais, privilegiando as informações veiculadas nacionalmente. O foco tem sido a execução de músicas e programas popularescos, com equipes mais enxutas. Afinal, apenas 15% das verbas publicitárias estão no Nordeste e são divididas entre diferentes veículos de comunicação.
A crítica é tecida tanto por parte dos ouvintes ávidos por informação, como pelo pesquisador Christiano Câmara e pelo professor de Radiojornalismo, Luis Paulo Machado. Ambos são aficionados pelo rádio desde muito cedo, embora sejam de diferentes gerações.
O pesquisador acompanhou a instalação da primeira emissora em Fortaleza, a PRE-9 - Ceará Rádio Clube, em 1943, que reinou soberana por 14 anos, instalada no bairro Damas, tendo seguido mais tarde para o Edifício Diogo. A segunda a ser implantada na capital foi a Rádio Iracema, em 1948, no Edifício Triunfo, na esquina das ruas Barão do Rio Branco e Guilherme Rocha, no Centro. Hoje totalizam 18 emissoras FMs e 5 AMs.
“As emissoras priorizavam os valores locais. Cheguei a freqüentar alguns programas de auditório, mais tarde incorporados pela televisão. Tenho saudade do respeito pelo ouvinte e pelas horas do dia. Hoje, você ouve programas policiais em plena hora do almoço. Nossa rádio era romântica, tal como nossa época”, diz.
Para o pesquisador, é interessante pensar na rádio como o “diabo da mente”, no sentido em que o ouvinte é livre para pensar de acordo com sua cultura local e com sua geografia sentimental sobre as informações que são sugeridas. “O rádio permite maior liberdade de imaginação”.
O professor Luís Paulo Machado lembra que a magia está na possibilidade de ter acesso ao mundo gastando R$ 15,00 para adquirir um aparelho que cabe na palma da mão. “É muito mais barato do que um celular, por exemplo, que promete incluir conteúdos informativos em sua tecnologia. Por isso é lamentável que as rádios locais pouco invistam em radiojornalismo. Há uma parcela de analfabetos, semi-analfabetos, deficientes visuais e trabalhadores noturnos que têm neste aparelho um importante meio de comunicação”.
Segundo ele, este “velhinho” continua ágil. Até na internet há uma gama de conteúdos de rádio a serem selecionados. OPINIÃO DO ESPECIALISTA
TOM BARROS *
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Ouvinte ganhou voz nas rádios
Antes de ser radialista, sou um ouvinte, daqueles caçadores. Tenho as minhas prefências e estou sempre ligado nas emissoras AMs, em busca de informação. Apesar do fenômeno da televisão, que levou para a telinha muitos dos programas formatados para a rádio, este veículo de comunicação continua tendo o seu espaço e cada vez com maior participação do ouvinte.
O seu horário nobre é de 5 às 8 horas da manhã, quando as pessoas estão acordando, tomando banho ou café — atividades incompatíveis com a televisão. É da década de 60 a difusão do rádio portátil, o que permitiu que o aparelho fosse levado até para a beira de lagoas, pelas lavadeiras. Então, se popularizou, ganhou atenção cada vez maior do público que vem conquistando espaço e voz.
Até a década de 70, período da ditadura, o ouvinte participava indo aos programas ou sugerindo músicas. Com a democratização do País, a participação ganhou força e hoje vemos sugestões e reclamações feitas ao vivo.
* Radialista ASSOCIAÇÃO
Ouvintes se organizam para exigir qualidade
Que rádio temos, que rádio queremos? Com estes questionamentos, um grupo de cinco amantes do rádio organizou o primeiro Encontro do Ouvinte, em 2003. Com diversos interesses em comum, como o de estabelecer relações mais próximas com os comunicadores e de contribuir para um comportamento mais respeitoso entre a população e os locutores, o grupo organizado criou a Associação de Ouvintes de Rádio do Ceará (Aouvir). A sede é na Casa de Cultura Juvenal Galeno, ao lado do Theatro José de Alencar, no Centro.
Todo ano são premiadas as pessoas que se destacaram nas categorias: ouvintes, operadores de áudio e radialistas. “Nosso objetivo é destacar o trabalho delas na história do rádio”, explica o presidente da Aouvir, Francisco Djacyr Silva de Souza. Entre outras ações, está a elaboração da cartilha do ouvinte, manual com dicas de como participar dos programas, a lista dos profissionais da área e a história da rádio.
“Também visitamos as emissoras. Todo este trabalho é estimular a liberdade de imprensa que valoriza o cidadão. Queremos programas de qualidade, com respeito tanto dos locutores pelos ouvintes, como o contrário. O locutor fala na casa das pessoas em diferentes horários do dia, portanto temos que contar com comportamentos adequados de todos que estão envolvidos nesta participação”, argumenta.
Segundo ele, a relação população via rádio é tão intensa que Djacyr conhece casos de pessoas que colocam seu telefone no ar para solicitar ajuda para superar uma depressão. “As pessoas ligam e criam laços de amizade. Para mim, os maiores heróis são os locutores da madrugada, que passam mensagens de otimismo, lêem poesias e criam clima agradável nas noites mal dormidas”.
O próximo passo da Aouvir é uma audiência pública na Assembléia Legislativa para fazer uma ampla discussão sobre os meios de comunicação. Notícia retirada do site do Diário do Nordeste. Publique este artigo no seu site | Visto: 2969
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