´300´, adaptação cinematográfica da ´graphic novel´ de Frank Miller e Lynn Varley, bate recorde no Brasil, engrandece a resistência dos espartanos e abre polêmica sobre a incorporação da linguagem dos quadrinhos
Editada no Brasil em 1999 (um ano depois da edição americana) pela Editora Abril em formato de minissérie com o título de ´Os 300 de Esparta´, a ´graphic novel´ escrita e desenhada por Frank Miller e ´colorizada´ por sua mulher, Lynn Varley, ganhou imediatamente ´status´ de obra clássica. Com liberdade sobre os fatos históricos, Miller reconstitui nas tiras, com um visual altamente estilizado, como o rei Leônidas e os 300 soldados de sua guarda pessoal enfrentaram, à entrada do desfiladeiro das Termópilas, um formidável exército persa estimado entre 60 e 300 mil soldados sob o comando do tirânico Xerxes.
Adaptado para o cinema pelo americano Zack Snyder, 41, realizador de ´Madrugada dos Mortos´ (2004), ´300´ traz para a tela grande a mesma concepção dos quadrinhos, processo este já utilizado por Robert Rodriguez e o próprio Frank Miller na confecção de ´Sin City´ (2005). O modelo pegou e já está sendo aplicado em ´Sin City 2´, também de Rodriguez, a ser lançado no próximo ano.
Primeiro grande sucesso comercial de Hollywood neste ano, ´300´ custou US$ 60 milhões, dinheiro este quase todo empregado na confecção dos efeitos especiais. Aliás, não há um só fotograma sem a marca dos efeitos especiais, os quais concedem um tom ´noir´ inserido no cenário e realçado pela fotografia de Larry Fong (de ´Lost´ e ´Herói´). Lançado há quatro semanas nos EUA, já arrecadou precisos US$ 180 milhões. No mercado internacional seu faturamento já chegou aos US$ 100 milhões.
No Brasil, apesar da censura imprópria para menores de 16 anos, ´300´, com quase 500 cópias e em exibição em 511 salas, foi visto por mais de 600 mil pessoas, tornando-se recordista histórico das ´maiores aberturas´ (estréias).
Linguagem x fidelidade histórica
Afora o sucesso espetacular, o filme tem suscitado duas discussões: a incorporação da linguagem dos quadrinhos ao cinema e o desdém à fidelidade histórica. É dever do crítico separar essas duas vertentes e colocá-las à luz para o leitor, já que os temas pipocam discussões nos jornais, nos sites e nas conversas.
O Cinema, não se precisa dizer, mas vá lá, reúne seis outras artes - arquitetura, dança, escultura, literatura, música e pintura. Desde seu nascimento o cinema vai incorporando outros elementos, como a computação gráfica para efeitos visuais, a tecnologia digital etc. O cinema e sua linguagem estão aí mesmo para angariar outras formas de arte - a fotografia, o teatro, por exemplo - e a dos quadrinhos, uma forma de arte, já não é novidade. A novidade trazida por ´300´, o rápido congelamento da imagem (com membros decepados, corpos caindo e o sangue espirrando no celulóide) traz os quadrinhos de vez para dentro da linguagem cinematográfica - numa execução, senão original, criativa. O que se pode questionar é o uso indiscriminado do recurso, como o faz Snyder.
´300´ impõe uma recriação da estética visual dos quadrinhos. Há cenas inteiras idênticas às da ´graphic novel´. É, de forma inquestionável, a incorporação dos quadrinhos à linguagem cinematográfica, e quanto a isso não se trata de nenhuma heresia. O Cinema deve estar aberto a todas as formas de arte, numa busca pelo aprimoramento de sua linguagem.
O problema é outro: essa fidelidade quase canina de Snyder à obra original mantém inclusive os ´escorregões´ históricos criados por Miller. E essa é a segunda questão.
As incoerências históricas
Em termos de fidelidade histórica, Miller tomou ´liberdades´ e efetuou alterações desnecessárias. As questões sociais e políticas da Esparta de 480 a.C, por exemplo, estão praticamente ausentes. Situações foram grotescamente alteradas e fatos nunca ocorridos ganharam destaque. A seguir, alguns deles.
Os Éforos, por exemplo, eram, na verdade, conselheiros políticos integrados à sociedade espartana, e não excluídos sociais contaminados pela lepra, como está no filme. No enredo, eles são misturados à figura do Oráculo de Delfos, o qual, através de suas Pitonisas, as mulheres videntes, aconselhavam os interessados, através de frases cifradas, sobre seus destinos.
Outro contexto incorreto é o momento em que Leônidas, aos sete anos, é retirado da mãe para ter sua iniciação como guerreiro. Dali até os 18 anos as crianças tinham um duríssimo treinamento, mas só eram liberadas para o primeiro ´banho de sangue´ aos 18 anos, quando tinham de provar seu valor e o aprendizado matando um animal selvagem.
O filme, se acerta na exposição do caráter e da personalidade da mulher espartana (a qual era treinada desde jovem como atleta e quando adulta detinha 1/5 das terras), dotando-a de voz na sociedade, erra ao expor Gorgo, a mulher de Leônidas, entregando-se a um corrupto ´conselheiro´ para ter acesso aos políticos e a estes pedir a liberação do exército. Isso foi grotescamente acrescentado por Snyder ao filme para dar espaço à personagem feminina.
Na Esparta daquele tempo ninguém tinha interesse em ser corrupto, pois não existia espaço para isso. Além disso, qualquer pessoa, desde que de origem espartana, poderia falar publicamente. A imagem de Gorgo apunhalando o ´conselheiro corrupto´ é apenas de um deslize histórico para dramatizar os acontecimentos. O pior, no entanto, está no aparecimento de moedas persas com o conselheiro, expondo-o como corrupto, um fato incoerente, pois na Grécia a moeda de Xerxes não tinha como ter valor algum.
Não se sabe, historicamente, por qual razão um agricultor-pastor ateniense teria indicado ao exército de Xerxes o caminho secreto por trás do desfiladeiro. O traidor, Elfiates, surge como um deficiente físico com grotescas deformações. Provavelmente uma forma de Miller idealizar, metaforicamente, os traidores.
Podem ser contabilizadas, ainda, como incorreções históricas, o visual de Xerxes e seu mensageiro negro que adentra Esparta para falar com Leônidas. Xerxes aparece com postura ´andrógina´, gestos um tanto afeminados e o corpo cheio de ´piercings´, além da voz ´sintética´. Uma forma metafórica de apresentá-lo como um megalomaníaco que se tinha como divino? Rodrigo Santoro, irreconhecível, repete os gestos do personagem contidos nos quadrinhos. O mensageiro negro surge com visual ´rastafari´. Etíopes integravam o exército persa, mas duvidam os historiadores como alçados à condição de mensageiros. E, com toda certeza, não usavam o estilo ´rastafari´.
O próprio exército grego, visto quase semi-nu, tem certo exagero. Segundo Zairo Leite, professor de História da Universidade Estadual do Ceará, os soldados espartanos eram razoavelmente bem protegidos. Para terem uma maior liberdade de movimento, usavam um protetor para as pernas, outro para o tórax e um elmo longo protegendo a nuca. O escudo e as lanças, por vez, eram de bronze.
Heródoto e a História
Miller disse ter se baseado nas exposições do livro ´Warfare in the Classical World´, no qual o historiador John Gibson Warry expõe as roupas e armaduras de guerra da Grécia antiga ao período romano. Mas, segundo Miller, sua fonte real foi o livro ´História´ (editado no Brasil pela editora Prestígio, R$ 79.00), de autoria de Heródoto (484-420 a.C). O primeiro historiador do mundo tinha apenas quatro anos quando ocorreu a batalha. Apesar desse posto e mesmo tratando o passado como uma questão filosófica, Heródoto misturava, em suas reconstituições, tudo o que encontrava pela frente - não selecionava as fontes e incorporava informações históricas, lendas, mitos e até o sobrenatural. Um exemplo: ele contabiliza os persas em 2,5 milhões de homens - um número refutado pelos historiadores ao longo dos tempos.
Um dos pontos mais questionados pelos historiadores, no filme, é a utilização de elefantes por Xerxes. Apesar de fazerem parte da narrativa (está no Livro V) do historiador grego, os historiadores atuais questionam o fato, afirmando que seria muito complicado para Xerxes utilizar elefantes, os quais teriam de enfrentar cansativas e perigosas viagens de navio da Pérsia à Grécia, além da necessidade de serem bem alimentados - e, para Xerxes, já era complicado alimentar satisfatoriamente seu imenso exército. Para fechar, Leônidas não feriu Xerxes, mas o persa perdeu seus dois irmãos na batalha final.
Não está no filme, mais fixe-se no contexto. Na Esparta de 480 a.C existiam dois reis. Um para os períodos de paz e outro para os tempos de guerra. Leônidas era o militar, um guerreiro como poucos, inteligente e estrategista. Para enfrentar os milhares de persas, estabeleceu seus homens à frente do estreitíssimo desfiladeiro das Termópilas, o acesso à periferia da Grécia e cuja largura dava espaço para apenas duas carroças.
O espartano utilizou, além de sua guarda pessoal, cerca de 7 mil soldados - na verdade camponeses, artesãos etc -, que foram se agrupando ao longo da jornada para as Termópilas. Leônidas sabia que jamais poderia derrotar o exército persa, mas esperava resistir até o término das festividades dedicadas à Lua, quando o exército grego seria liberado. A derrota adveio, mas Leônidas e a resistência nas Termópilas ingressaram na História.
A análise busca levar ao leitor determinados contextos e deixar ao cinéfilo uma reflexão sobre o Cinema, os recursos da linguagem e da necessidade ou não da fidelidade histórica. Ultimamente Hollywood tem produzidos vários filmes nos quais os efeitos especiais são o grande espetáculo, ao mesmo tempo em que busca novos elementos para a linguagem cinematográfica. ´300´ representa essa tendência, digamos assim. A partir daí, a formulação de uma reflexão sobre o cinema como expressão artística, lembrando que ´o Cinema é a arte da síntese´, como costuma ressaltar o crítico L. G. de Miranda Leão.
Quanto à questão da fidelidade histórica, seria oportuno deixar, também, a curiosidade pela pesquisa em cima do fato histórico. São as alternativas deixadas pelo crítico, lembrando ainda que a vitória grega sobre os persas, ocorrida em seguida nas batalhas de Salamina e Platéia, foi determinante para a base da futura civilização ocidental quanto à consolidação da democracia e ao desenvolvimento da filosofia. ´300´ é, assim,um filme para ser visto e pensado. Publique este artigo no seu site | Visto: 3103
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