O Rappa é destas bandas que não sabe viver sem a estrada. “7 vezes”, seu novo álbum de estúdio, mostra bem isto - para o bem e para o mal. Nem parece que seu penúltimo disco de canções inéditas saiu há cinco anos ou que o multiplatinado “Acústico MTV” é de 2005. De lá para cá, o grupo não parou. Verdade fácil de comprovar nas numerosas passagens da banda pelo Estado, que não se restringem mais à participação obrigatória no Ceará Music.
Por pouco, não trouxeram o novo show para Fortaleza em julho, quando se apresentaram na série de shows gratuitos financiados pelo Governo do Estado. Ainda assim, não devem tardar a dar as caras por estes lados. “Nunca paramos de fazer turnê para gravar um disco. Estamos nesta há 16 anos”, conta o guitarrista Xandão, um dos fundadores do grupo ao lado de Marcelo Yuka e Marcelo Lobato.
O que parece uma boa para os fãs, em um primeiro momento, pode ter efeitos negativos sobre a produção da banda. “7 vezes” não é um disco ruim. Comparado ao que outros veteranos como Charlie Brown Jr. e Capital Inicial andam fazendo, fica bem acima da média. O disco até tem seus bons momentos, mas é pouco para uma banda com a história d’O Rappa e, principalmente, para quem passou cinco anos sem lançar um trabalho autoral de canções inéditas. O Rappa, neste álbum, passou muito perto de cometer um “mais-do-mesmo”. Tanto que é quase previsível adivinhar os melhores momentos do disco - justamente aqueles que grupo tenta dar um passo à frente e oferece novas soluções sonoras para seu velho (porém coerente, diga-se) discurso.
Faixa a faixa
Para o disco, a banda preparou 14 faixas. Encarado como um todo, nota-se o grupo mais detalhista nos arranjos, com menos peso e também menos suingado que o habitual. Com esta levada, é difícil imaginar algumas faixas sendo executadas ao vivo no palco d’O Rappa, sem que a banda precise fazer alguns “ajustes”.
“7 vezes” abre com “O meu santo tá cansado”. É uma canção que se enquadra numa tradição do rock, meio mascarada, feita para não entregar o ouro de cara. Tem uma sonoridade estranha, um arranjo de tons épicos e ecos do grupo de rap cubano Orishas (o hit “Represent Cuba”). É uma canção competente, em que se sobressaem efeitos que dão à música um climão atmosférico.
A escolha da segunda canção surpreende. Quando se esperava uma porrada, feita sobre medida para fazer o público pular nos shows, aparece mais uma música “lenta”. “Verdade de feirante” pode passar despercebida para aqueles que procuram apenas o velho Rappa de sempre, mas é uma das melhores do álbum. Bateria jazzy, baixo funkeado, nervoso, dando corpo a música e uma guitarra flutuantes, como num velho surf music. A voz de Marcelo Falcão, no entanto, está lá, para provar que é a banda.
“Hóstia” é puro Rappa. Não dançante, mas com aquele som arrastado e letra-denúncia, discorrendo sobre as miséria do mundo. Não chega a segurar a peteca das anteriores.
“Meu mundo é o barro” é um daqueles momentos em que O Rappa, de fato, pende para um dos estilos musicais que compõem sua estética. É uma reggae, com uma batida dançante, cheio de efeitos. Uma canção básica, que funciona exatamente por sua simplicidade.
“Farpa cortante” tenta ser moderninha, mas é outro momento ruim do disco. A forte influência do rap no vocal de Falcão aqui só faz o grupo soar como uma paródia, um Planet Hemp indie. “Em busca do porrão” vem na seqüência, com o tal velho Rappa de volta. Tivesse sido feita uns anos atrás, seria um esporro. É um roquezinho com direito a tecladinho ocasional, que lembra (pasmem!) Lulu Santos.
A faixa-título é a sétima do disco. Atmosférica, lembra a abertura, mas num ritmo ainda mais lento. Tocada baixinho, com pouca expressividade. “Mundo invisível” sucede este momento pouco memorável, atualizando a banda. Rap e reggae fundidos, em uma mistura homogênea, que tem a cara do grupo. O refrão tem aquele jeito de “dejá vù”, típico daqueles que grudam na cabeça do ouvinte e o faz cantarolar já em poucas audições.
O Rappa embarca na onda do samba em “Maria”. Mas mostra não levar o mesmo jeito pra coisa que seu contemporâneo Marcelo D2.
Composta por Gordurinha e Nelinho, “Súplica cearense” já ganhou versões célebres com a de Luiz Gonzaga. Os cariocas mandam bem ao transformá-la em um reggae de raiz. É impagável ver os versos a seguir ganharem um novo sentido: “Oh! Senhor, pedi pro sol/ se esconder um pouquinho/ Pedi pra chover, mas chover de mansinho/ Pra ver se nascia uma planta, uma planta no chão”. Quem conta a história por trás da faixa é Xandão: “quem apareceu com a música do Gordurinha foi o Falcão, que viu a letra numa coletânea do Luiz Gonzaga. Comentou sobre ela com umas pessoas que trabalham na casa dele e que são do Nordeste. Ele viu como elas se identificavam com a letra. Além disso, é uma música que tem tudo a ver com este disco”. O guitarrista, paraibano de nascimento, conta que a faixa investe contra o preconceito do Sudeste contra o Nordeste. “Mas acredito que houve uma grande aproximação, em especial entre os jovens, a partir do Chico Science”, comenta.
“Fininho da vida” e “Documento”, que segue ao lamento cearense, são O Rappa calminho e saltitante. A primeira não se difere muito da produção anterior da banda, mas a segunda dá provas de vitalidade mesmo com o velho formato.
“Respeito pela mais bela”, escondida quase no final do disco, é outra faixa criativa, com levada jamaicana eletrificada. O disco encerra com “Vários holofotes”, repetindo o esquemão do grupo, mas sem dar um hit para os palcos.
Goste ou não, talvez O Rappa tenha chegado ao momento de parar, tomar um fôlego e se redescobrir para um mundo que não parou enquanto eles estiveram estrada afora.
DISCOGRAFIA
1994 - O Rappa 1996 - Rappa Mundi 1999 - Lado B Lado A 2001 - Instinto Coletivo (ao vivo) - duplo 2001 - Instinto Coletivo (ao vivo) - simples 2003 - O silêncio Q precede o esporro 2005 - Acústico MTV 2006 - Acústico MTV Edição platina (disco duplo, com 6 faixas bônus) 2008 - 7 vezes Publique este artigo no seu site | Visto: 3571
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