Em 1978 João Ferreira Gomes, conhecido como João das Pedras, ladrão famoso em São Benedito, foi morto por uma descarga elétrica, armadilha montada por donos de chácaras para pegar ladrão. Depois de morto, segundo contam, teve o corpo arrastado pelas ruas e em seguida apedrejado. João das Pedras ficou famoso e ganhou a simpatia popular. Não são poucos, por outro lado, principalmente entre as camadas letradas, os que duvidam de tal história e a consideram “folclórica” – no sentido pejorativo, de crendice popular ou fanatismo.
Depois de 30 anos desse acontecimento, no dia 2 de novembro, Dia de Finados, o túmulo onde está enterrado João das Pedras, situado no Cemitério de São Benedito, é o mais visitado pela população da cidade e por turistas, alguns, oriundos de cidades vizinhas. Muitos movidos por pura curiosidade, outros pela esperança de um milagre motivada por histórias ouvidas de pessoas que já haviam tido contato anterior com tal devoção ou pela própria publicidade, promovida pelas notícias que se espalharam pelas emissoras de rádios da região.
Numa primeira observação, no Dia de Finados, o que distingue o túmulo de um morto milagroso, ou santo do cemitério, do de qualquer outro morto bem visitado é o número incomum de pessoas que se quedam junto a ele, e o vai-e-vem constante, o dia inteiro, que pode começar já na véspera.
A aproximação das pessoas dá-se de maneira variável conforme sejam já devotas, familiarizadas com a existência da devoção ou apenas passantes que lá estão indo pela primeira vez para visitar um finado próximo. Os devotos chegam de maneira reservada, discreta, como é o caso da dona-de-casa Maria Mesquita, 56 anos, que desde quando foi visitar pela primeira a sepultura de João das Pedras, nunca mais deixou. “Tive um pedido atendido, então, desde este dia faço questão de vir até aqui visitá-lo. Rezo primeiro para a alma dele, acho que tem momentos que a gente chega a se comunicar”, descreve Maria Mesquita.
.jpg) Quando alguém narra o milagre, conta sob a forma de testemunho direto, realiza algo mais que apenas comentá-lo ou contá-lo. A pessoa o sustenta, uma vez que alimenta a fé em sua eficácia e assim concorre para sua reprodução social.
O aposentado Gilson Mendes, 55 anos, é um exemplo. Ele conta que estava ali pela primeira vez, foi atraído pela história da namorada. Mendes, que ficou alguns minutos em silêncio, observava sua companheira acender um maço de vela. “Dizem que, quem vem aqui e acende uma vela, alcança seu pedido. Espero que os nossos sejam atendidos”, disse ele.
Assim, nada há de surpreendente em que muitas sejam as histórias dentro da história de João das Pedras e do episódio que fez dele um santo popular ou, pelo menos, alguém que pode ser lembrado e homenageado com oferendas no Dia de Finados, geralmente muito calados e focados na intenção de cumprir sua prestação ritual. É inútil tentar abordá-los nesse momento. Maria Oliveira, 59 anos, se emociona ao falar de João das Pedras. “Eu vivia num sofrimento, perdi pai e mãe, tive minha aposentadoria cortada. Foi difícil para mim e, graças a Deus, primeiramente, e a João das Pedras, pude rever o dinheiro da minha aposentadoria”, conta.
Ex-votos
À beira do túmulo daquele homem encontra-se um amontoado de ex-votos (feito de madeiras). Em um pequeno altar são deixados fotografias, talvez de um parente doente. Esses objetos costumam ser oferecidos ao morto e deixados sobre seu túmulo.
A entrega dessas oferendas é típica do universo do pagamento de promessas e da crença em milagres. O morto privado, que recebe somente a visita de sua própria família e amigos mais chegados, também recebe velas, que é a oferenda religiosa por excelência, carregada de significados, no entanto, não recebe ex-votos.
Teresinha dos Anjos, 67 anos, disse que lembra da morte de João das Pedras. Ela disse que “foi muito triste, era de fazer dó, parte do seu corpo queimado e ainda arrastado. Fiquei muito triste com a morte dele, todos que conheciam sabia que ele roubava, mas roubava dos ricos para os pobres, não era para ele. Na casa do padre João Batista ninguém gosta de ouvir está história”, contou.
FIQUE POR DENTRO Origem e o significado do Dia de Finados
O culto funerário remonta à antigüidade. No entanto, o Dia de Finados, lembrado no 2 de novembro, foi instituído no fim do Século X pelo abade Odilon. Entretanto, o dia 2 de novembro, a despeito de sua instituição religiosa como parte do calendário católico, é, para muitos, uma prática leiga, uma espécie de culto secular ou profano, de caráter privado, que consiste na homenagem ao finado socialmente próximo, tipicamente um parente. Wilson Gomes Colaborador
ENQUETE O que você acha de João das Pedras?
Beatriz Almeida de Souza 78 ANOS
Quando venho visitar a cova de meu esposo, faço questão de visitar o túmulo de João das Pedras também.
Teresinha dos Anjos 67 ANOS
Fiquei triste com a morte dele. Todos que conheciam sabia que ele roubava dos ricos para os pobres.
Maria Oliveira 59 ANOS
João das Pedras era um homem bom. Por isso, não merecia morrer de maneira tão violenta.
FENÔMENO Pesquisa mostra que devoção popular não é unânime
A pesquisadora trata, também, da vida das pessoas que acreditam nele e a quem lhe atribuem graças
Fortaleza. Segundo a historiadora Michelle Maia, o trabalho sobre João das Pedras busca ver o fenômeno a partir da história social. Mais do que falar de João das Pedras, um sujeito comum que ganhou “status” de santidade após sofrer uma morte violenta, a pesquisadora trata, também, da vida das pessoas que acreditam nele e a quem lhe atribuem graças alcançadas.
“É um fenômeno que também é englobado pela história social da cultura. Por exemplo, embora Lampião fosse um bandoleiro, muita gente acreditava que aquilo era fruto de uma revolta contra os ricos. A partir do João das Pedras, eu procuro perceber como essa sociedade se organiza, tanto para quem acredita nele quanto para quem acha isso uma ofensa à santidade. Esse e outros casos estão assentados num chão muito rico de tradição oral e religiosidade”, revela.
Além de passar todos os Dias de Finados dos últimos seis anos à beira do túmulo do santo popular, a historiadora Michelle entrevistou cerca de 30 pessoas, entre familiares de João das Pedras, pessoas que o conheceram ou viveram no mesmo período e, até, a família que vivia na casa onde o ladrão foi eletrocutado.
“Uma coisa muito interessante é que o filho do seu Epifânio hoje é padre e atuou até bem pouco tempo em São Benedito. Foi difícil conseguir entrevistar o padre João Batista, ele tinha 14 anos na época e lembra que a família ficou muito consternada com a morte de João das Pedras. Ele argumenta que o pai estava muito preocupado com a segurança e que colocou a cerca elétrica apenas para dar um susto. Mas o fato é que, na época, nenhum processo foi instaurado contra eles, mesmo a cerca sendo ilegal”.
Michelle lembra que muitos entrevistados se manifestaram contra aquela devoção e até questionavam a relevância da pesquisa. “Quando eu procurava as pessoas e dizia o que estava pesquisando, alguns diziam: ´vá pesquisar na cadeia, que esse é o lugar de ladrão´ ou ´minha filha, tanta gente de bem e você vai atrás de quem não prestava?´. Pensei até em não continuar a pesquisa no mestrado. Mesmo na época em que estava fazendo monografia, houve quem dissesse que esse era um tema que não renderia uma dissertação”, recorda. Ela também diz que em dois livros de memórias “oficiais”, escritos sobre a história da cidade de São Benedito, não há qualquer referência a João das Pedras ou à devoção em torno de seu túmulo.
Outro dado relevante notado pela pesquisadora foi que um dos poucos dados escritos que havia sobre o ladrão eram as agendas que registram as missas encomendadas por sua alma, encontradas na igreja da cidade. No entanto, ela percebeu que as intenções eram registradas para João Ferreira Gomes, que era o nome de batismo do ladrão, mas não pelo nome que ele era conhecido.
“A secretária da paróquia me explicou que o padre mandou que a intenção de missa só fosse feita com o nome de batismo. Acabava que a pessoa que encomendava não se sentia contemplado porque não ouvia do padre o nome João das Pedras. Mas analisando as agendas, percebi que havia registros de intenções para outras pessoas que eram feitas com o apelido mesmo. Isso mostra que a Igreja Católica convive, mas não aceita essa devoção”, avalia Michelle.
Apesar disso, a historiadora acredita que o fato de João das Pedras ser uma pessoa comum também permite uma maior identificação de sua figura com os devotos. Testemunhos que revelam as faltas, as incoerências e as complexidades do fenômeno. “Tem muita gente que lembra que jogava bola com ele, que via ele tomando café ou que dançou com ele numa festa. O fato de registrar esses momentos mais cotidianos mostra que as pessoas se sentem próximas a ele. Até hoje em dia, quando há um roubo ou um caso violento na cidade, o povo diz que na época dele não era assim, que ele roubava só para dar aos pobres”. Notícia retirada do Diário do Nordeste Publique este artigo no seu site | Visto: 1977
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